10.8.09

O Espírito Verde

Emersa em águas
A cada dia mais rasas
Sou feito esponja
E me alimento do líquido inodoro
Com sabor de expectativa otimista

Deitaram-me nessa poça
E acostumei-me a sobreviver
Sorvendo diariamente pequenas doses
Temendo consumir o único fluido
Capaz de me manter longe da morte quando acordada

Como se fosse uma pequena chama
A qual alimento com cuidado
- meticulosamente
Aqueço-me e afasto o gélido pesar
Do eterno nunca mais

Aconchego-me nessa bolha
Que – como se encantada – possui um sonoro silêncio
Impenetrável por sons alheios que,
Tal qual fagulhas, dilaceram-me
E enegrecem minha espera - ânsia.

7.8.09

Todos riam despreocupadamente. Seus olhos emitiam o brilho da beleza e do bem-estar. A comida era tão farta quanto a hipocrisia. Conversas paralelas, cada uma mais alegre do que a outra, originavam um constante burburinho na sala e uma celeuma na minha cabeça. "Eu quero, sinceramente, descer de uma Mercedez vestindo um terno e ser chamado de doutor." Os sorrisos, forçando aparentar conforto, eram atestados de que os que ali estavam encontraram seu caminho e se deram bem na vida. E por qual outro motivo estariam ali se não esse?? "Eu fui efetivada!" O ar na sala ficava mais pesado a cada gargalhada que ecoava. Méritos e conquistas adquiriam asas e voavam pela grande e sufocante sala. Mas tudo estava bem. Tudo tinha que estar bem, não tinha? Crescemos, ora essa. É dever dos adultos construir uma família, ter seus filhos e ser feliz; mostrar isso aos outros, por que não? Qual o problema em copartilhar com os ex-colegas colegiais toda essa exuberante felicidade? Ex-colegas de sonhos; ex-colegas repletos de ideais comuns; ex-colegas esperançosos, jovens, com sede por fazer alguma coisa para mudar qualquer coisa; ex-colegas planejando um futuro juntos; ex-amigos. Crescemos? Mudamos. E esquecemos de mudar juntos. Os olhos não são os mesmos, por que os sonhos seriam? "Aprendi que na vida o jeito é ser egoísta, por que os outros são egoístas comigo." Mas os risos não cessavam, assim como o tempo não voltava. Celebrar!, era o que podiam fazer, ainda que, do lado de fora da janela, o mundo explodisse silenciosamente.

5.8.09

Revolution

Eu queria escrever palavras duras. Queria mudar o mundo, queria ter ideais. Um anticapitalista com um discurso enfático! Ou quem sabe salvar os pobres da fome que lhes aplaca. Eu podia me envolver em alguma causa nobre... Fazer um abaixo-assinado em favor do impeachment da governadora, ou entregar panfletos de consciência sobre o aquecimento global. Deveria apontar o dedo na cara das pessoas e lhes mostrar seus erros, seus egoísmos!! Sim, eu deveria... Mas tudo isso cansa tanto, exige tanto esforço, que prefiro apenas sobreviver aos dias.

4.8.09

Poesia, velas e vinho

Tinha as unhas de preto pintadas
Em luto por mais uma morte em sua vida
A espontaneidade, os pais, esperanças aladas
E agora ele
Deixando sua existência mais mórbida ainda

Fechou os botões da capa cinza
Que tentava afastar de seu corpo o frio congelante
"é o inverno mais rigoroso dos últimos anos"
Era o que anunciava o vendedor de jornais ambulante
Mas não era o tempo, e sim seu coração que estava gélido

A maçaneta da porta girou sob sua mão
E o ar que lhe chegou aos pulmões era quente
Havia muitas pessoas ali
Pedindo bebidas no balcão
Mas foi a solidão a única que lhe cortejou naquele ambiente

Tirou de sua bolsa o livro de poemas
Precisava de Vincent Millay e de seu conforto lírico que acalma
"Only until this cigarette is ended..."
Acendeu um cigarro, e a cada baforada
Expelia para longe a fumaça, como se fosse um fragmento de sua alma

A parca iluminação configurava um sombrio ar
Mas não era necessária muita luz
A quietude do lugar e dos que ali estavam
Era constrangedora demais para se mostrar
E as poucas velas eram suficientes para as sombras que desejavam dançar

Na mesma cadeira de sempre se acomoda
Pois as mudanças jamais atravessam as velhas portas duplas
E ali seu amor defunto hiberna
Enquanto entorna um copo de vinho atrás do outro
Sentada no canto ermo da escura taverna

3.8.09

Separou languidamente sua roupa, a qual equilibrou em apenas um braço; o outro segurava o aparelho de som. Alice levou tudo ao banheiro e voltou ao quarto para escolher algum CD. Naquele dia, Led Zeppelin IV. Passou as duas primeiras músicas – agitadas em demasia para o seu estado de espírito – e começou a se despir com Battle of Evermore. Sentiu vontade de fechar os olhos e dançar lentamente. “Oh, dance in the dark of night”... Foi o que fez durante os próximos cinco minutos e cinquenta e quatro segundos; Stairway To Heaven a fez parar. Não cabiam passos de dança naqueles acordes, que a entristeceram. Também queria sua própria estrada para o céu, que a cada degrau deixasse para trás suas dúvidas. Não; quando o ritmo da música acelerou, quis apenas um banho quente. O sol brilhava alto, marcando o meio-dia, mas o seu calor não chegava com suficiente vigor à terra; seus raios apenas passavam pelo vidro e irisavam o peito de Alice, enquanto ela deixava a água correr por seu corpo. A música seguinte a fez abandonar sua introspecção. Foi quando ela me notou. Eu estive ali por uma semana inteira, compartilhando ao mesmo tempo o espaço do chuveiro e aquele momento íntimo. Quando a vi pela primeira vez, soube que se banhar não era para ela apenas um ato do cotidiano. Além de Bob Dylan, Janis Joplin, Pink Floyd, Joni Mitchell, Beatles e BB King, ouvi também seus pensamentos, adivinhei-os pelos traços de sua face. Alice realmente achava que poderia remover de si, com a força da água, tudo o que desejasse; deixava escoar pelo ralo o passado que lhe perturbava e mantinha apenas aquilo que lhe aprazia. Ou ao menos era nisso que gostava de acreditar enquanto esfregava o sabonete em sua pele. Quando me viu, empurrou com o pé até mim a água acumulada no chão. Eu atrapalhava seus devaneios, apesar de ter estado ali por seis dias sem ter sido descoberta. A garota era tão presa a si mesma que aquilo que lhe circundava parecia fazer parte de um mundo no qual ela era apenas uma visitante. Tentei fugir do jato de água, mas não fui ágil o bastante; debati-me brevemente, mas logo cansei. Minha paralisação foi o sinal verde para o seu fluxo de pensamentos. Não mexi mais nenhum músculo e fiquei como morta. Alice fechou o chuveiro com o início de “Going To California” e então me olhou novamente; teria que passar por mim para sair. Continuei sem me mover. Foi então que seus olhos pareceram se desviar de seu interior e neles vi estampado o terror: “Meu Deus, eu matei a lagartixa!” Em todos os dias que estive ao seu lado sem que soubesse, nunca havia presenciado tal envolvimento com algo externo; só por isso não pude dar qualquer sinal de que estivesse viva. Abismada, foi me empurrando com os mesmos jatos de água que me lançara antes. Perto do meu abismo, não pude conter minha pata dianteira, que se levantou em sinal de suplício. Foi, embora, um movimento brusco e fugaz, o qual Alice considerou apenas um último espasmo, mas que lhe arrancou um grito abafado. Com um esforço que lhe sugou todas as energias, deu-me o último empurrão. No mesmo instante em que meu corpo tocava o chão com um baque, ouvi seus sussurros cantados: “Standing on a hill in my mountain of dreams, telling myself it's not as hard, hard, hard as it seems…” Não era egoísmo ou adoração do próprio eu que a trancafiaram em sua mente; era a questão primordial de Camus que atravessava sua mente de um lado para outro: “Vale a pena viver?!” Minha falsa morte ressuscitara a questão. Eu estava viva, mas não faria qualquer esforço para lhe provar isso.

Seguidores