25.4.10

Eu tava lendo um livro do Bukowski, atirada no sofá do diretório acadêmico da faculdade. Era pra estar assistindo à cadeira de Teoria da Puta Que Pariu, mas a sala de aula tava sufocante. Ali também; como acadêmicos gostam de fumar, credo. Ao menos tinha música boa, tava rolando um Pink Floyd. Os guris jogavam sinuca e continuavam a piada interminável do dia.
O Pedro também saiu da aula.
- E essa literatura de homem aí, guria?
Olhei por cima dos meus óculos e chamei ele pra perto. Segurei a mão dele contra meu seio.
ISSO é literatura de homem. O livro não passa de um amontoado de palavras.
Ele ficou chocado e nem soube o que dizer; foi embora.
Enchi o saco de caras que acham que só homem sabe apreciar o Buko. O que acontece é que sacamos ele de maneiras diferentes. Quando coloquei a mão do Pedro contra meu peito, era pra ele sentir meu coração. Óbvio que mesmo chocado o que ele quis foi sentir outra coisa mais 'apertável', digamos assim, mas não menos pulsante.
Eu sinto o coração da literatura beat. Não é a nudez da gorda de 300kg quebrando a cama do Bukowski que vejo. Enxergo a tristeza daquela mulher que vive o dilema de desejar ser comida e de não querer acordar sozinha na manhã seguinte. Melancolia, melancolia...
Acho que nem existe mais de um tipo de literatura - como eu já disse, são só palavras. Mas eu não pensava assim, eu nem escrevia porque achava que isso não era algo que uma mulher saberia fazer bem. O lado feminino sempre aflora na ponta do lápis e se torna piegas, ainda mais quando tenta colocar o "tu" no papel:

Oh, amor como sofro por ti
Padeço nesse mundo cruel,
Morro um pouco aqui e ali
Só porque tu não és mais meu,
Meu doce Rafael

Blábláblá, romance de folhetim, Clarice Lispector e Madames Bovary emocionadas em busca de um novo affair. Sempre preferi um Charles Baudelaire, um Pessoa e, claro, um Bukowski. Mas sempre houve duas exceções no meu hall da fama: Dickinson e Vincent Millay. Mulheres que escrevem tão bem que eu diria que é escrita masculina. Daí eu achei, por um tempo, que devia escrever que nem homem. Até criei um pseudônimo. Pensei que com a nova identidade minha escrita tava livre de afetações de mulherzinha bancando a poetisa (a Cecília também preferia ser chamada de poeta). Não deu muito certo. O máximo que consegui foram alguns textos assexuados (meu lado feminino neutralizado pelo pseudônimo masculino = texto sem sexo - e o sexo é vital à escrita). Então, que se foda. Vou escrever como eu mesma, com afetações ou não. Só pra mostrar pro Pedro onde é que fica o coração de uma mulher.

3.2.10




Quero embriagar-me
beber-te de um só gole
por inteiro, nu

De vinho tinto, vinho teu
quero sentir meu corpo ardente
ansioso e sedento

Mas tu me chegas à garganta
e o copo seca.

Tu és meu oásis,
e eu sou teu deserto.

Eu te seco da chuva fria
Se em minha mão fores cálice.

Vens à mão que te deseja
e a afoga.

Minha saliva implora
por teu beijo líquido
Hilst sabe o que digo.

Embriagai-me por inteiro,
todo nu.

Não me entregue a planta pronta
me dê a semente
regue, cuide
me molhe todos os dias.

19.1.10

beber sozinha é como protagonizar
um poema triste do Bukowski
com a cadência das horas
maestrada pela melancolia

6.1.10


a gordinha mal conseguia se equilibrar

em sua sandália de salto

mas na mão esquerda

um brilho peculiar

hmmmm casada

as gordinhas também amam


todos podem amar

desde que queiram

bom, não é que eu não queira

só quero que seja de verdade


não vou inventar um amor

não consigo ficar acompanhada

só para não estar sozinha

o amor inventado

é mais triste do que o não-amor


já tive o amor

bem ao lado, na minha cama

de que me adianta?

eu não sentia merda alguma

fui embora

e deixei o amor ali


tem que ser intenso

como um acorde

da guitarra de Buddy Guy

ou como um verso

de Bob Dylan


meu homem vai ler

Bukowski para mim na cama

vai saber a hora de me tratar

feito uma puta

e quando me amar

como uma dama

e o mais importante é que

vai me fazer rir

quando a realidade

tentar me jogar

no abismo da dor.


21.12.09

poesia não se cria
não se inventam palavras
que rimem em versos ímpares

a poesia vem,
senta ao lado
e sussurra-se em nosso ouvido

25.11.09

LIMITE DE CARACTERES É CENSURA DISFARÇ

18.11.09

Geração Perdida


"O homem é condenado a ser livre", e eu optei pelo Existencialismo para iniciar. Liberdade: luto para tê-la, para então descansar sentindo o pesar de possuí-la. Escolher um entre dois só cabe a mim, o que exulto com vigor; o trilho de consequências dessa escolha, no entanto, vai tão longe, quase ao infinito, que meus olhos têm de se esforçar muito para enxergar, tanto que começam a doer. A dor da escolha, então, me toma por inteiro, me deixando imóvel, estática.
Minha geração é dos anos 80/90. Nascidos no período pós-ditaduras, pós-contracultura, pós-luta pela igualdade (entre sexo, entre cores). Distantes 30 anos da década das revoluções, não participamos das lutas que nos proporcionaram a liberdade que temos. Bom nascer em um mundo evoluído, no qual outros se encarregaram de facilitar as coisas para mim.
Mulheres queimaram seus sutiãs para que eu pudesse olhar nos olhos de homens sem me sentir diminuída, tendo a certeza de que aquilo que possuímos entre as pernas não interfere em nossos direitos; ainda que enquanto eu o faça, esteja usando sutiã. Mas e se eu quiser que direitos iguais signifique tudo isso, porém ainda desejar que abram a porta do carro para eu descer? Bom, isso seria atestar dependência quanto ao gênero masculino, e, nesse caso, não condizente com a pregação dos direitos iguais. Contudo, considerando essa situação, os direitos iguais tentdem a afastar, e não aproximar os sexos.
Para os hippies, a causa mais importante depois da paz era a luta pelo amor livre. Concomitantemente à revolução sexual, houve a construção da ideia do sexo como algo natural, belo e saudável. Alguns levaram esse ideal ao extremo, sem temer novas experimentações. Minha geração não participou disso, mas assistiu às consequências; AIDS mata. Temos em uma mão a fulgurante, charmosa e sonhadora expressão amor livre; na outra, um recorte de jornal com a manchete da morte de Cazuza.
Timothy Leary, o guru das drogas nos anos 60, fez uma linda defesa do LSD, explicitando todos os seus benefícios. As drogas passaram por um processo de despreconceitualização. Mas a Heroína arrancou Janis Joplin dos palcos cedo demais. Direta ou indiretamente relacionada com as drogas também foi a morte de Jimi Hendrix, Jim Morrison e Kurt Cobain. Os quatro se foram aos 27 anos, e, mesmo não os tendo conhecido, sinto a falta de sua presença no mundo. Queria-os aqui, dizendo que não foi a droga em si, mas o excesso dela. Queria Leary realizando novas pesquisas e ajudando a esclarecer e ensinar o uso consciente. Creio que não nos culpam pelo anseio de ver o que nos circunda de forma mais colorida e vibrante; não podem nos julgar por desejar alterar a realidade suja que nos turva os olhos a cada manhã. Ainda assim, nos oprimem à simples menção da palavra alucinógeno. Assim como a AIDS, mata.
Não sabemos pelo que optar. Amontoam-se informações em nosso banco de dados, e o excesso de conhecimento nos inibe o movimento. É pouca vida para tanta opção. Chegamos aos tempos malditos: vivemos a era da relativização! Certo e errado se miscigenam a ponto de formar uma grande substância amorfa e pastosa. Fétida. Somos obrigados a manter certa distância desses conceitos. Já não é assim tão maravilhoso ter nascido nesse mundo onde lutas foram travadas antes de mim, sem que eu pudesse escolher, me posicionar e batalhar também.
Não somos a geração da revolução, somos a geração perdida. Cometemos insanidades, somos impelidos a tanto. Queremos atenção, precisamos saber, afinal, que direção tomar... O que fizeram conosco?! Estamos perdidos... Não vejo saída e nem onde isso vai dar. Mas não consigo prever um lugar muito bonito no fim de tudo. Essa liberdade toda que possuímos para fazer nossas escolhas nos atormentam; tentamos, em contrapartida, manter uma atitude positiva. Afinal, somos jovens!, cabe a nós aproveitar a vida, usufruir daquilo que ela nos oferece; sem exageros, pois há consequências. Não... isso não passa de um confuso pensamento otimista. E quando otimismo se iguala, em minha mente perturbada, ao pessimismo - por funcionar apenas como lentes que colocamos nos olhos, mascarando a realidade - não posso permitir essa visão distorcida, que engana. Quero ver as coisas e entendê-las como de fato são. Manuel fartou-se de lirismo que não fosse libertação; eu também estou farta, mas de liberdade que não tem acorrentada a si a verdade.

5.11.09

SINESTESIA - As minhas e as tuas memórias


I. Eu queria rever meus amigos. O tempo da minha juventude, por algum motivo que no momento ignoro, não sai da minha cabeça... Eram bons dias aqueles em que corríamos juntos por aí, feito loucos que nada devem a ninguém. Não sei, deve ser a chuva. O dia está nublado e tudo ao meu redor cheira à nostalgia. Inclusive o perfume dela... Pude jurar que senti sua fragrância no ar.
Que merda!, fico melancólico nesses dias. Creio que seja porque não sinto vontade de sair de casa e o ócio me deixa muito pensativo. E a máxima de Descartes não se aplica a mim, definitivamente. "Cogito ergo sum"... Quanto mais eu penso, mais louco fico e quase deixo de existir - ao menos nesse mundo aqui. Lucidez excessiva não faz bem... Enxergar as coisas em demasia e se questionar constantemente pode ser muito perturbador. Eu fico me perguntando se a vida é só isso mesmo, ou se tem algo a mais a descobrir. Só quando escuto minhas músicas e leio meus autores preferidos meu coração parece serenar. O que sinto então é tão grandiosamente intenso que eu tenho que acreditar na vida - ainda que de maneira levemente cética. Mas agora não me sinto assim.
Não posso procurar meus amigos hoje... hoje não posso. Se fosse há alguns anos, eu provavelmente passaria a tarde lendo Jack Kerouac, cerrando as páginas do livro toda vem em que ficasse boquiaberta com as palavras do meu querido beatnik. Oh, companheiros de minha juventude... Sem dúvidas, não posso revê-los agora.
Se eu fecho os meus olhos e me concentro, quase posso sentir o toque dos teus lábios nos meus...

1.11.09

O muro é alto



"Caso alguém tenha problemas com cigarro, alertamos para que escolham assentos mais afastados do palco, pois as atrizes fumam em cena". A fala é real e nem faz parte do teatro, mas já nos deixa imaginativos para o que veremos. Quero dizer, Nelson Rodrigues punha a mãe com tesão pelo filho, e o irmão querendo comer a irmã no mesmo palco, mas a incomodação se abstinha ao plano psicológico. "Para F.K" já começa prometendo mais.
O início é suave: violão, luz fraca. Quatro mulheres e um músico. "Músico" já explica tanta coisa, que o termo se faz preferível ao simples "homem". Quanto às mulheres, alta, loira, crespa e pequena é tão raso quanto a gota que sobrou no copo. A pequena é romântica; tão possuída pelo desejo de amar que se recitasse Florbela Espanca - "eu quero amar, amar perdidamente!/Amar só por amar: Aqui... Além..." -, as palavras pareceriam suas. A alta? Dama da noite é como a chamam. Bebe para ofuscar sua lucidez, sua consciência a respeito da vida que não lhe deixa jamais, pois possui o olhar de quem vê de fora, fora da roda... Quem enxerga tanto jamais dorme; fica assim, com a feição cansada, exausta. Ela gostaria de ser acalentada pelo abraço da outra, com seus cachos abundantes a lhe acariciar a face. Doce... tão doce! Sua falinha mansa, cheia de dengo... que de repente se vai e explode!!, pela falta do toque dele. Não do músico, do homem.
Loira - gorda, burra e feliz, ela diria. Feliz? Pode ser. Acredito que a melancolia possa ser feliz mesmo. Bom, reconfortante ao menos. Linda, sem dúvidas; chega por trás e a envolve, a põe louca, enraivecida, nostálgica. E ele nem foi embora ainda. É como disse a pequena, "dias frios te deixam mais lento, mais bonito"; a melancolia também é um dia frio... põe lágrimas na face... mechas loiras tentam escondê-las.
Todos os corações, com suas peculiaridades femininas, o querem. Seja porque gostam muito, porque ele não liga há tempos, porque ele cresceu demais, ou porque é apenas um garotão inocente. E DAÍ?!! Que vá embora! Mas a perspectiva do não-retorno as amendronta tanto que as prende em si mesmas. Para sempre, pois a peça termina deixando o infinito todo para que cada uma delas o percorra em trilhos de dor; no deserto, sem bichos, água ou árvores. Nada. Apenas um muro alto, ainda intransponível.
A luz volta e incide no meu olho a realidade. Há aplausos, porém os meus são automáticos. Não tenho vontade de ovacionar, por mais fantástica que tenha sido a atuação. Aliás, é justamente esse fato que bloqueou meus movimentos. A alta, a loira, a crespa e a pequena me arrastaram e me acorrentaram no seu mundo que bebe, fuma, grita e sente. Ao sair do teatro com os fones no ouvido, Bob Dylan me adivinha... "How does it feel? To be on your own, with no direction home..." Para aqueles que têm problemas com cigarro, lugares afastados do palco bastam; aos que acreditam que "sentir é melhor maneira de viajar/Sentir tudo de todas as maneiras/Sentir excessivamente...", apenas do outro lado da porta é seguro
.

25.10.09

Crime e Castigo - Fiodor Dostoiévski


Raskólhnikov de louco, frívolo e assassino passou a ser humano completo e ciente sobre a vida. Foi ao extremo para comprovar sua teoria; matou. Não foi capaz, no entanto, de sustentar sua ideia inicial; culpou-se, angustiou-se pelas mortes causadas. Enlouqueceu ao se ver demasiado humano, e não gênio. Após infindas indagações interiores e buscas por explicações, decide se entregar. Sônia o acompanha à Sibéria. Lá, em um primeiro momento a desilusão e um novo sentimento: o de fraqueza. Julgou-se pusilânime por ter se entregado. Após cair doente, contudo, há uma reviravolta descrita tão rapidamente que se faz difícil de acompanhar. Sônia ao seu lado, uma vasta e bela paisagem a sua frente, e a golfada de ar que lhe arfa o peito; como se tivesse sentido a vida novamente. Agora que estava preso fisicamente, conseguira se libertar da prisão mental a qual estivera submetido. Acima de tudo, sentia amor; amor à Sônia. O livro termina de modo emocionante; fechei-o e o levei de encontro ao meu peito, tentando manter perto de mim aquela história tão bonita – que a muitos pode parecer apenas a história de um assassinato e percurso do vilão. Com Raskólhnikov aos pés de Sônia, Doistoiévksi descreve: “O amor ressuscitava-os, o coração de um encerrava infinitas fontes de vida para o coração do outro”; Raskólhnikov se reconectava com o mundo.
Dostoiévski conseguiu descrever as aflições psicológicas de um personagem complexo de forma tão intensa a modo de proporcionar ao leitor uma grande dose das angústias sentidas por ele. E, ao terminar, o renascimento de Raskólhnikov nos dá uma sensação de que ainda há algo para ser descoberto... Algum grande acontecimento – que não seja um assassinato, por favor – que nos colocará em conexão completa com o mundo; um sopro de epifania.
Tido como o pai do existencialismo, Fiodor insere Crime e Castigo nessa corrente, que tem como axioma a seguinte frase de Jean Paul Sartre: “A existência governa e precede a essência”. Daí advém a maneira como Dostoiévski descreve os dias de Raskólhnikov – maçantes, para olhos desatentos -, apenas “preenchendo páginas”. Tacitamente, encontra-se a busca pela essência, traduzida na aflição de Raskólhnikov.

20.10.09

"All I have to do is dream"



O mundo é feio, e a vida não é doce como supôs
Em sua inocência infantil
E você já nem sabe porque até aqui veio
Coisas ruins acontecem
Pessoas morrem na hora errada
Quem não devia está no comando
Não há lugar suficiente e nem todos comem
E mesmo que não apareça todo dia o Vietnã na tevê
A cada manhã o sol sangra
Pelas batalhas diárias que ele vê

Você tem vontade de chorar
De sentar no meio do caminho
E desistir
Como um fraco, como um tolo
Como alguém que se desesperou porque creu sozinho
Porque é tão triste perceber
Que a vida não dá certo para todos
Que você é inútil tantas vezes
Por não poder sanar a dor de quem quer bem
Não pode fazer uma roseira morta
Novamente florescer
Nem sanar a solidão da velhinha
Sentada no ônibus ao lado de um menino
Que lhe impede de conversar sobre o tempo
Pois tem fones no ouvido

Mas você tem a sua garota
E quando ela lhe envolve em seus braços
Todo o resto perde o foco
Pois ela é como uma balada romântica
Que acaricia seus ouvidos
E devolve o brilho aos seus olhos baços
Então você até acredita em sonhar
Quando ela imagina a casa no campo
No topo da colina
Com animais, lago e um pomar
Talvez seja esse o sentido da vida
É o que você ousa pensar
E já nem lembra dos antigos "ais"
Mas admite que nada disso precisa ser dito
Basta ouvir a gaita harmônica do Bob Dylan
Traduzindo toda a dor e toda a beleza
Transformando o mundo em notas musicais

29.9.09

Come gather 'round people



Lembro de ter esnobado toda aquela euforia em função de o Obama ter sido eleito. Claro que eu estava contente - quem não estaria com a saída do Bush? Mas eu tinha dentro de mim a convicção de que isso não deveria ser tão aclamado, e sim tratado com mais naturalidade. Esse destaque, essa enfatização do fato de ele ser negro, fez parecer que foi algo muito fora do comum a sua eleição. Quando não deveria ser! Era apenas um homem competente, com boas ideias e potencial - se ele fosse verde, ainda assim não perderia essas qualidades. Enfim, proclamar essa minha opinião poderia ser forçar a barra - o que não me impediu de dizê-la por aí para quem quisesse ouvir. Talvez, contudo, eu só pense assim porque para mim isso soa como um acontecimento natural. Mas para outras pessoas, está longe disso. E então isso tudo deve ser muito exultado e comemorado mesmo, para fazer com que essas pessoas acordem e se deem conta de que as coisas estão mudando, progredindo - que elas tomem parte nisso também, começando a se naturalizar com esses fatos. O Bob Dylan comemorou a vitória do Obama em um show, que fazia no dia da decisão; ele devia se lembrar de quando, enquanto cantava 'for the times, they are a-changing', em 64, os negros conquistavam o direito de poder frequentar os mesmos lugares públicos que brancos, com o Ato de Direitos Civis. Sem desprezar, ou soltar fogos de artifício, canto apenas, então, calma e esperançosa, 'and the first one now, will later be last/for the times, they are a-changing'.
Perguntaram o que eu pensava a respeito de Zelaya. Minha mente começou a viajar, vi na minha frente o mapa daquele país centro-americano, a cara bigoduda do presidente e as mulheres com fitas no rosto em forma de xis, reclamando liberdade de imprensa. E as mulheres me fizeram lembrar dela. Ela havia dito que me amava. Tá certo que tinha sido depois de uma transa intensa, mas eu senti que era sincero. Vi nos seus olhos. A boca pode mentir, os olhos não. Nunca haviam me amado antes. Ou talvez sim, mas ninguém me deixou ter conhecimento disso. E foi tão bonito o modo como ela disse. Foi como se essa fosse a única verdade no mundo. E eu acreditei. Então lembrei do Kerouac e de como ele dissera uma vez que ninguém mais acredita no amor, e que o amor é a grande mensagem, o puro significado da vida. Ele estava certo. E ela também.
Ah, o Zelaya. Que se dane.

20.9.09

"Despe-te, despe- te/Quanto mais nu, mais tu"




Elas ouviam o blues; escutavam os gemidos da guitarra e se excitavam em cada distorção. O piano as punha loucas... Os dedos ágeis mal se deixando visualizar. Libertas, finalmente libertas. Cada grade da prisão que as confinava ia ao chão, uma a uma - assim como suas roupas. Libertinas. Vestir-se só tinha utilidade para os pudicos, para os puritanos e para os não-dançarinos. Seus corpos se ondulavam e suas mentes giravam. Enquanto isso, a água fazia seu papel e as banhava, inundando de frescor seus cabelos. A nudez interligava tudo que fosse puro, como elas. Conectava tudo que fosse Renoir. Sem más impressões, apenas impressionismo. Nu.

16.9.09




O livro é um relato jornalístico do assassinato de uma família do Kansas. Intercalando "cenas" da família e dos assassinos, Capote vai dirigindo a narrativa para o seu ápice, seu clímax, que se dá no momento em que uma amiga da família encontra o corpo de Nancy, filha dos Clutter.
As palavras são pensadas e posicionadas em frases construídas com o propósito de "dar vida" a essa terrível história - o que poderia parecer contraditório, não fossem inumeráveis os casos de notícias relatadas como anúncios de publicidade; os fatos pelos fatos. No entanto, o acontecimento apenas exposto na mídia seria rapidamente esquecido. Um assassinato, por mais pérfido que seja, não choca as pessoas por muito tempo; torna-se parte do cotidiano ouvir esse tipo de crime em noticiários. Capote, miscigenando apuro jornalístico, sensibilidade e uma alma literária, encontrou a forma correta de eternizar essa crueldade transformada em livro em 1966. Ele viveu a história que contou ao mundo, envolveu-se com a matéria, foi a fundo naquilo, quebrando a barreira das reportagens convencionais. E isso se chama Novo Jornalismo, apesar de Capote afirmar sua obra como sendo apenas um romance não-ficcional.
De fato, não há ficção; há apenas a realidade - tal como é, penetrante, infeliz e inesquecível. Que fossem relatadas assim todas as injustiças que nos rodeiam, de forma que as imagens colassem em nossas retinas e não nos deixassem dormir - dessa maneira, seríamos obrigados a agir para que pudéssemos serenar novamente. É esse o jornalismo de verdade, o jornalismo que eu busco: aquele que não apenas relata o passado, mas incita a mudança no futuro.

15.9.09

Era o quinto dia consecutivo de chuva intermitente, e Augusto mexia vagarosamente o seu café. A colher andava em círculos, mas isso não representava nada; apenas uma colher, apenas mais um dia nublado. A ausência do sol não diminuía o brilho dos acontecimentos.

O nome completo – o seu nome! –, ali, na lista do vestibular, nunca parecera tão bonito. Augusto Abbott – História. Sua paixão sempre foram os livros repletos de datas e fatos, e seus ídolos iam de Júlio César a Martin Luther King. Aqueles caras haviam feito a diferença, e agora chegara a sua oportunidade de fazê-lo.

Ao contrário do que alguns poderiam pensar, Augusto não estava preso ao passado; conhecia seus detalhes e fazia uso disso para guiar seus passos no presente. "A História pertence ao ontem; eu, ao hoje" - era o que sempre dizia. Sentia o calor de todas as possibilidades que lhe rodeavam, sentia o calor de todos os tempos, sentia o calor da vida lhe envolver. Tinha o olhar sonhador. Seu café havia esfriado, mas sua mente estava fervendo.

11.9.09

Do grego syn (união, junção) - aisthesis (percepção)

A explosão de sons rapidamente se transforma em cores vibrantes... Cade cheiro dessas cores e sons toca meu corpo em todas as partes possíveis. Sopros de volúpia trepidantes fazem meu corpo fremitante emitir, através de ondas, palavras libidinosas, que se organizam em frases completas de prazer absoluto. Gozo musical! Os acordes me penetram...

5.9.09


Tenho o coração no ouvido
E ele vibra a cada acorde
Sejam tons graves ou agudos
Como um trovão, bate forte

Se tu me queres, toca alto
Até que meu coração
- Apaixonado e tão leve -
Ao meu peito volte então

30.8.09

Hold On



A morte é de Ophelia, mas poderia ser minha. Ou tua. You tried so hard to be someone/That you forget who you are. Não queria ser Ophelia. Nem eu. Nem tu. Mas queria ser cheia. You tried to fill some emptiness/Till all you had spilled over. Espaços de vida preenchidos com destilados ou fermentados - sem distinção alguma. Depois de milhares de copos, nem isso faz mais sentido. Tampouco as artes. Apenas o que eu vejo e não queria ver. Apenas o que eu sei sem querer. When all that you wanted/And all that you have/Don't seem so much/For you to hold on to. Queria poder renascer - em um desejo incitado pelo céu azul após a chuva, como acontecera com Vincent Millay -, mas ainda não morri completamente. Queria renascer cega. Não, não desisti por inteiro. Mesmo que eu saiba como vai ser, como vai continuar sendo. Ainda que essas palavras ecoem pela eternidade, dançando no vazio. When it's hard to be yourself/It's not to be someone else. Serei sempre eu; com as correntes nos pés, de quem quer fugir e não pode, "de quem dorme irrequieto, metade a sonhar". Sonhando que sou outro, ou que tu és eu, quando, na realidade, somos ambos Ophelia.

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